terça-feira, 10 de outubro de 2017

Dia da Criação: Mensagem do Papa e Bartolomeu – Texto integral




Por Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu


A narração da criação oferece-nos uma visão panorâmica do mundo. A Sagrada Escritura revela que, «no princípio», Deus designou a humanidade como cooperadora na guarda e protecção do ambiente natural. Ao início, como lemos no Génesis (2, 5), «ainda não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para a cultivar». A terra foi-nos confiada como dom sublime e como herança, cuja responsabilidade todos compartilhamos até que, «no fim», todas as coisas no céu e na terra sejam restauradas em Cristo (cf. Ef 1, 10). A dignidade e a prosperidade humanas estão profundamente interligadas com a solicitude por toda a criação.


Os efeitos do nosso comportamento


«No período intermédio», porém, a história do mundo apresenta uma situação muito diferente. Revela-nos um cenário moralmente decadente, onde as nossas atitudes e comportamentos para com a criação ofuscam a vocação de ser cooperadores de Deus. A nossa tendência a romper os delicados e equilibrados ecossistemas do mundo, o desejo insaciável de manipular e controlar os limitados recursos do planeta, a avidez de retirar do mercado lucros ilimitados: tudo isto nos alienou do desígnio original da criação. Deixamos de respeitar a natureza como um dom compartilhado, considerando-a, ao invés, como posse privada. O nosso relacionamento com a natureza já não é para a sustentar, mas para a subjugar a fim de alimentar as nossas estruturas.


Pobres são os mais impactados


As consequências desta visão alternativa do mundo são trágicas e duradouras. O ambiente humano e o ambiente natural estão a deteriorar-se conjuntamente, e esta deterioração do planeta pesa sobre as pessoas mais vulneráveis. O impacto das mudanças climáticas repercute-se, antes de mais nada, sobre aqueles que vivem pobremente em cada ângulo do globo. O dever que temos de usar responsavelmente dos bens da terra implica o reconhecimento e o respeito por cada pessoa e por todas as criaturas vivas. O apelo e o desafio urgentes a cuidar da criação constituem um convite a toda a humanidade para trabalhar por um desenvolvimento sustentável e integral.


Rezar para mudar o modo de perceber o mundo


Por isso, unidos pela mesma preocupação com a criação de Deus e reconhecendo que a terra é um bem dado em comum, convidamos ardorosamente todas as pessoas de boa vontade a dedicar, no dia 1 de setembro, um tempo de oração pelo ambiente. Nesta ocasião, desejamos elevar uma acção de graças ao benévolo Criador pelo magnífico dom da criação e comprometer-nos a cuidar dele e preservá-lo para o bem das gerações futuras. Sabemos que, no fim de contas, é em vão que nos afadigamos, se o Senhor não estiver ao nosso lado (cf. Sal 126/127), se a oração não estiver no centro das nossas reflexões e celebrações. Na verdade, um dos objectivos da nossa oração é mudar o modo como percebemos o mundo, para mudar a forma como nos relacionamos com o mundo. O fim que nos propomos é ser audazes em abraçar, nos nossos estilos de vida, uma maior simplicidade e solidariedade.


A quantos ocupam uma posição de relevo em âmbito social, económico, político e cultural, dirigimos um apelo urgente a prestar responsavelmente ouvidos ao grito da terra e a cuidar das necessidades de quem está marginalizado, mas sobretudo a responder à súplica de tanta gente e apoiar o consenso global para que seja sanada a criação ferida. Estamos convencidos de que não poderá haver uma solução genuína e duradoura para o desafio da crise ecológica e das mudanças climáticas, sem uma resposta concertada e colectiva, sem uma responsabilidade compartilhada e capaz de prestar contas do seu agir, sem dar prioridade à solidariedade e ao serviço.


Do Vaticano e do Fanar, 1 de setembro de 2017.


Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu


OBS: O artigo publicado trata-se do texto integral da mensagem conjunta do Papa Francisco e do Patriarca Ecuménico Bartolomeu I, para o Dia Mundial de Oração pela Criação

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Não acredito que escutei a palavra onanismo!



Por Júlio Antunes


Outro dia, um senhor religioso muito idoso chamou a minha atenção para que não fizesse a apologia do "onanismo", sob pena de ir para o "inferno" e que isso seria um "vício próprio dos sodomitas".

Curioso, fui ao dicionário ver qual o significado do termo onanismo e encontrei no Priberam esta definição:

"(Onã, .antropônimo [personagem bíblica] + -ismo)
substantivo masculino
1. Coito interrompido antes da ejaculação.
2. Masturbação masculina."

Como já fui crente por muitos anos, em que até frequentava a escola dominical de uma igreja evangélica, não foi difícil entender o porquê do uso da palavra assim como já tinha conhecimento do significado de sodomia, cuja aplicação aos homossexuais já considerava deturpada em relação à própria narrativa da Bíblia.

De acordo com a lenda hebraica, Judá, um dos chefes das doze tribos da nação de Israel, teve três filhos no seu primeiro casamento. O primogênito, Er,  casou-se com Tamar. Porém, o texto das Escrituras conta que ele era "mau aos olhos do Senhor" e, por isso, Deus o teria castigado com a morte.

Seguindo o costume patriarcal da época, a viúva e o irmão do meio, o tal do Onã, teriam que manter um relacionamento sexual a fim de que o falecido pudesse ter uma descendência. Ou seja, quando ela emprenhasse do cunhado, a primeira criança do sexo masculino seria considerada filho do que morreu e, obviamente, iria disputar a herança de Judá junto com o pai biológico mas que, para fins formais, seria somente o tio do menino.

A grande confusão que se fez em cima dessa história mítica encontra-se nos versos 9 e 10 do capítulo 38 de Gênesis, cuja narrativa assim diz:

"Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou."

Devido à má interpretação desse episódio da Bíblia é que a masturbação foi associada ao citado personagem e embasada doutrinariamente pela Igreja (São Tomas de Aquino?) como um "pecado contrário à natureza". E olhem que o texto, considerado sagrado pelo cristianismo, nem é claro em dizer se Onã batia uma quando estava na tenda com a cunhada ou tirava o pênis de dentro dela na hora em que fosse ejacular.

Apesar de ser hoje um agnóstico e considerar a Teologia de baixa utilidade para o progresso da humanidade, creio que, nos tempos passados, faltou um estudo dos padres e pastores que fosse imparcial. Até porque não me parece ter sido a punheta e nem o coito interrompido uma conduta má conforme os valores culturais dos antigos hebreus, mas, sim, a recusa em manter viva a memória do irmão falecido, tendo em vista a instituição entre eles do costume que obrigava um homem a gerar filhos para a viúva de seu irmão quando este morria não deixando descendência masculina.

Claro que esse costume também é questionável segundo os valores atuais e, neste sentido, talvez até desnecessário. Até porque seria um absurdo obrigar a viúva de um homem a transar com o cunhado. Aliás, se nem a mulher é obrigada a ter relações sexuais com o marido ou aceitar um matrimônio arranjado pela família, uma situação dessas já não teria o mínimo sentido para os nossos dias onde se reconhece a igualdade de gênero.

Na inauguração de uma nova era científica, de respeito às diferenças, de liberdade sexual, tolerância e paz entre os povos (se é que a humanidade sobreviverá até lá), resta apenas desmistificar toda a estupidez repressiva inventada pela religião baseada em literaturas consideradas sagradas. Por isso, talvez, ainda sobra algo de útil na Teologia e não jogo fora a cultura eclesiástica aprendida no meio cristão.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O DEUS OPERÁRIO E A REDENÇÃO DA MALDIÇÃO DO TRABALHO

Por Hermes C. Fernandes 
(extraído do Facebook)

Finalmente, o Dia do Trabalho. E para muitos, não haveria melhor maneira de se comemorá-lo do que tirando um dia de folga. Quem gostaria de passar o Dia do Trabalho trabalhando, não é mesmo? 

Fica a impressão de que trabalho seja um mal necessário, uma espécie de maldição. Daí, a ojeriza que temos pela segunda-feira e o anseio para que chegue logo a sexta-feira.  O sonho de muitos é ganhar na loteria para nunca mais ter que trabalhar. Consideramos bem-aventurado quem ganhe muito trabalhando pouco. 

Há até quem busque justificar tal postura teologicamente. Estes entendem que o trabalho foi instituído por Deus como uma maldição decorrida do pecado. A célebre frase "Do suor do teu rosto comerás..." ecoa como uma sentença condenatória. Ledo engano! Mesmo antes da Queda, Deus destacou o primeiro homem para que cultivasse o seu jardim. Portanto, o Jardim do Éden, ou jardim dos prazeres, também era o jardim do labor. 

Se trabalho fosse maldição, logo, o Deus revelado em Cristo seria um deus amaldiçoado. "Meu Pai trabalha até agora", declara Jesus, "e eu trabalho também" (João 5:17).

O que torna o trabalho algo penoso ou prazeroso é o seu propósito. A pergunta que deveríamos nos fazer é: pelo quê trabalhamos? Ironicamente, se trabalhamos visando unicamente nosso sustento e aprazimento, o trabalho se torna um tormento. Mas quando trabalhamos visando o bem comum e a glória de Deus, sentimo-nos realizados e plenamente satisfeitos. Em outras palavras, o que dignifica o trabalho é o amor. Isaías profetiza que Jesus "verá o fruto do trabalho de sua alma, e ficará satisfeito" (Is.53:11). E qual seria o tal fruto do Seu trabalho? A redenção da humanidade e a restauração de toda a criação. Portanto, o que motivou o Seu árduo trabalho foi o amor.

Se num jardim, o trabalho tornou-se numa sentença de maldição, também foi num jardim que Cristo resgatou o sentido sagrado do trabalho ao ter Seu suor transformado em sangue. Movido tão-somente por amor, Ele abriu mão de viver para Si mesmo para oferecer Sua vida em resgate de muitos. Por amor Ele sorveu inteiramente o cálice que nos estava destinado, absolvendo-nos de toda e qualquer sentença. Uma vez redimidos, deixamos de viver e trabalhar visando exclusivamente nosso próprio bem, para viver e trabalhar em função da glória de Seu amor e do bem de nossos semelhantes.

Repare nisso: Sua obra redentora começou antes da cruz! As primeiras gotas de sangue que derramou não foram provocadas pela perfuração dos pregos, nem pela coroa de espinhos ou pelas chicotas. Em vez disso, Seu suor, símbolo do árduo trabalho a que fora submetido o homem, tornou-se em sangue. Pode-se dizer, então, que a primeira coisa a ser resgatada por Cristo foi a relação do homem com o trabalho. Tal se deu pelo fato de que a primeira sentença que recebera de Deus afetou justamente sua relação com a terra. O que antes era prazeroso, tornou-se doloroso. O que era gracioso, tornou-se custoso. Cristo toma sobre Si esta sentença e nos absolve para que possamos viver plenamente nossa vocação profissional.

Assim como Jesus, o Pai também trabalha visando o bem daqueles a quem ama, como testifica o mesmo profeta Isaías, "desde a antiguidade não se ouviu, nem com os ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nele espera" (Is.64:4). Quem diria? O Deus dos cristãos é um Deus Operário. Ele trabalha até no turno da noite! "Aos seus amados, Ele dá enquanto dormem" (Sl.127:2b).

Igualmente, devemos viver e trabalhar por aqueles a quem devotamos nosso amor. Como asseverou Paulo: "Ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si" (2 Co.5:15).

Sabemos que "em todo trabalho há proveito" (Pv.14:23), todavia, o trabalhador não deve ser o único a se beneficiar de seu labuto. Como discípulo do Pai e do Filho, impulsionado pelo Espírito, requer-se do verdadeiro cristão que "trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade" (Ef.4:28). Isso não quer dizer que não se possa usufruir dos frutos do próprio trabalho. Pelo contrário. A Escritura declara que "o lavrador que trabalha deve ser o primeiro a gozar dos frutos" (2 Tm.2:6), e que sem qualquer sentimento de culpa, "todo homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus" (Ec.3:13).

O que deveríamos considerar maldição não é o trabalho, mas a ociosidade. Por isso, Cristo adverte aos Seus discípulos: "Negociai até que eu venha"(Lc.19:13). A palavra "negócio" é a junção de duas outras palavras: negar + ócio. Portanto, trabalhar é negociar, isto é, negar o ócio, descruzar os braços, buscar o que fazer. Pode até ser que falte emprego, mas jamais faltará trabalho. 

Desde os primórdios da igreja, alguns quiseram se aproveitar daquele clima de solidariedade em que todos repartiam entre si os seus haveres, e com isso, recusavam-se a trabalhar. Paulo teve que cortar um dobrado com esses espertalhões. A ordem apostólica era: "Se alguém não quer trabalhar, também não coma" (2 Ts.3:10). Uma coisa é não trabalhar por razões contrárias à vontade, tais como falta de oportunidade, doença, injustiça, etc. Outra coisa é não querer trabalhar. Ninguém tem o direito de ser pesado aos demais. Paulo dá testemunho acerca da postura que ele mesmo adotou no afã de ser exemplo para os demais:

"Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós." 2 Tessalonicenses 3:8

Outra coisa que Deus abomina é a exploração do trabalho alheio. Paulo dá eco ao princípio ensinado por Jesus: "O trabalhador é digno do seu salário" (1 Tm.5:18; Lc.10:7). Se trabalhar é sinônimo de bênção, ser explorado é o que há de mais próximo do que poderíamos chamar de maldição.

Assim como há quem queira receber sem trabalhar, também há que queira tirar vantagem do trabalho de outros. Há duas severas admoestação para os tais, uma extraída do Antigo e outra do Novo Testamento:

"Ai daquele que edifica a sua casa com iniquidade, e os seus aposentos com injustiça; que se serve do trabalho do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário." Jeremias 22:13 

"Eis que o salário que fraudulentamente retivestes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos clama, e os clamores dos ceifeiros têm chegado aos ouvidos do Senhor dos Exércitos." Tiago 5:4 

Deus não viola Seus próprios princípios. Quem se atreve a burlá-los certamente terá consequência. Assim como queremos que nosso trabalho seja valorizado, recebendo o que for justo, devemos valorizar o trabalho dos outros, pagando-os de acordo com o que for justo e honesto.

No Reino de Deus, ninguém precisa perder para que outro ganhe. Onde impera a justiça, ali há paz. E onde houver paz, ali haverá alegria.

Feliz Dia do Trabalho a todos!

domingo, 16 de abril de 2017

Politeísmo cristão




Por Donizete Vieira
(Do Facebook)

Ário foi um grande teólogo. Ele foi o pivô de uma crise teológica que se instalou na igreja cristã no quarto século, provocando inclusive a necessidade de um concílio para saná-la. O objeto central da discussão: A controversa doutrina da Trindade, cuja essência é a ideia de um único Deus com três identidades, cada qual com sua própria descrição, e a suposta natureza divina de Jesus. Doutrina articulada por Atanásio, que convenceu a maioria dos seus colegas que Jesus Cristo era Deus, enquanto Ário, por sua vez, afirmava que Jesus foi criado em algum momento.

O Concílio, apesar das divergências, visto que pelo menos vinte e oito, de um total de trezentos e dezoito bispos eram arianos, conseguiu deliberar e reconhecer essa sofisticada e intricada construção teológica, a Trindade. No entanto não se esforçaram o suficiente para formular uma defesa convincente contra a acusação de que trinitarismo era politeísmo. Já que, até hoje, tanto islâmicos como judeus, cônscios de que a sublime ambição da trindade é reconverter o politeísmo em monoteísmo, sugerem que ele só é viável se o Espírito Santo for transformado em vácuo e a forte personalidade de Javé for ignorada. Proposta desconsiderada pelos cristãos.

Mas qual é o temor da teologia cristã em renunciar a trindade? Ora, se afirmar que somente Jesus é Deus, isso faz dele um usurpador assim como Zeus usurpou o trono de Cronos, seu pai. Se deliberar que somente javé é Deus, tal proposta destrói todo um sistema salvífico que tem Jesus como figura central. A única saída, portanto, é fazer manutenção de uma doutrina ininteligível, inexplicável. Misteriosa.

sábado, 15 de abril de 2017

A Lava Jato e a Páscoa brasileira




Incrível como que as notícias sobre a "Lista de Fachin", referente às delações dos executivos da empreiteira Odebrecht na Operação Lava Jato, têm tomado conta dos nossos telejornais. Se antigamente as reportagens desta época mostravam mais as procissões sacras pelas cidades e demais eventos da Semana Santa, eis que, em 2017, os acontecimentos da vida cultural e religiosa do povo brasileiro estão sendo tratados como algo secundário depois que toda a podridão de alguns depoimentos guardados em sigilo passou a ser exposta nos horários mais nobres da TV. 

Ao que parece, a Globo e outras emissoras estariam focalizando mais no assunto da corrupção do que os usuários das redes sociais onde vejo as postagens diversificando-se em que, por exemplo, muitos internautas preferem lembrar do martírio de Jesus, exibir fotos de suas viagens, comentar sobre piadas, etc. Daí fico a indagar se, nesses três anos de investigações (a Lava Jato iniciou-se em 17/03/2014), a população já não se sentiria agora saturada com tantas notícias ruins sendo continuamente vomitadas a ponto de muitos até trocarem de canal quando o apresentador William Bonner passa a falar das revelações dos depoimentos e das novas prisões.

Entretanto, por mais que a televisão possa estar potencializando um tipo de informação em detrimento das demais, tento ver algo de útil nisso tudo e estabelecer uma conexão da Lava Jato com a Páscoa, a qual muitos comemoram sem saber do que se trata. Pois, afinal, o significado cultural dessa época não tem a ver com a ingestão dos deliciosos chocolates ou menos ainda com a figura de um coelhinho que trás os ovos para a criançada na madrugada de sábado para domingo. Antes de mais nada, estamos falando de uma tradição de origem judaica e que foi re-significada pelo cristianismo em relação à morte de Jesus de Nazaré.

Como se sabe, o Pessach, que é a "Páscoa judaica", celebra a libertação dos hebreus da escravidão egípcia sob o comando de Moisés. De acordo com a tradição, cujo relato encontra-se muito bem narrado no segundo livro da Bíblia (Êxodo), a primeira festa dos israelitas teria ocorrido há mais de três mil anos, quando Deus enviou ao Egito dez "pragas" contra os opressores. Antes do décimo castigo, cada família hebreia foi instruída para que sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais das portas de suas casas com o sangue do animal, a fim de que, quando o anjo passasse, os seus filhos mais velhos não fossem acometidos pela morte. Assim, depois que Deus feriu todos os primogênitos egípcios (desde as primeiras crias dos animais até os da família do Faraó), o rei, por temer a ira divina, concordou em liberar o povo de Israel para a adoração no deserto, o que levou a uma saída definitiva do país. Logo, como uma recordação desse evento mítico, ficou instituído para todas as gerações seguintes o sacrifício pascal.

Por sua vez, o Novo Testamento ensina que a ressurreição de Jesus, também celebrada pela Páscoa, seria o fundamento da fé cristã. Diz a primeira epístola de Pedro que Deus regenerou a humanidade para uma viva esperança pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (1ª Pe 1:3). Com isso, os cristão são espiritualmente ressuscitados com Cristo a fim de que possam ter uma nova vida. Aliás, a este respeito, o apóstolo Paulo também escreveu dando as seguintes advertências à Igreja em Corinto:

"Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da perversidade, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade." (1ª Co 5:7-8)

O que podemos entender acerca da Páscoa é que ela nos traz a ideia de renovação e aí, se pensarmos em política, isso diz muita coisa. Ou seja, vejo todos esses acontecimentos reveladores da Lava Jato como um convite para passarmos do velho para o novo, superando de vez esse nosso passado vergonhoso de uma escravizante corrupção para um relacionamento libertador entre o cidadão e o Poder Público.

Ora, quando falo em renovação, meus amigos, não me refiro apenas em mudarmos os nomes dos políticos, tipo colocar no Legislativo e no Executivo pessoas sem envolvimento com a Lava Jato apenas. Defendo é a eleição de homens e mulheres verdadeiramente íntegros, sem nenhuma vinculação com o "fermento antigo", ressaltando também a necessidade de não darmos mais um apoio aos candidatos que esteja condicionado a benefícios pessoais nos quais os políticos possam nos favorecer em troca. Pois é justamente isso que tanto enfraquece o mandato de um parlamentar vitorioso que, uma vez empossado, fica impossibilitado de lutar por propostas mais nobres porque se encontra comprometido a, por exemplo, empregar os seus principais colaboradores de campanha na ocupação dos cargos comissionados num governo.

Não podemos negar, queridos, que, assim como os políticos, a sociedade também se acha corrompida desde a sua base. Ontem mesmo a Globo mostrou o delator Henrique Valadares declarando que deu dinheiro a índios, policiais e sindicalistas por causa de obras feitas por sua empresa em Rondônia. Isto teria sido feito para evitar problemas na construção das hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau. Segundo ele, os sindicalistas "cobravam pedágios mensais" à Odebrecht para "não apoiarem greves, atos de violência, esse tipo de coisa".

Sendo assim, há que se dar um novo significado à nossa Páscoa! Pois, se bem pensarmos, do que adianta assistirmos todos os anos aquelas procissões e encenações típicas que rememoram a morte de Cristo se nada de bom que as Escrituras ensinam é posto em prática pela nação?! Logo, considero até apropriado que possamos ver diante dos nossos olhos toda essa podridão agora para que amanhã sejamos capazes de estabelecer uma renovação do nosso pacto republicano de uma maneira consciente, madura e verdadeiramente arrependida dos pecados que são coletivamente cometidos até hoje.

Certamente que a Páscoa não é e nem será algo instantâneo na vida de uma pessoa ou de um povo. Ela inaugura um processo histórico dialético com seus avanços e recuos, tratando-se de uma marcha que termina por seguir em frente no passar das eras, acompanhando uma espiral evolutiva. Por isso, precisamos dessa passagem libertadora que nos conduza a uma nova política na qual os valores éticos possam prevalecer e haja uma maior transparência juntamente com a participação social dos cidadãos.

Para concluir, quero amanhã poder degustar, mesmo simbolicamente, o produto da foto ilustrativa lançado pela Casa de Chocolates Schimmelpfeng, o qual seria um ovo de chocolate no sabor "moroango", em referência ao sobrenome do magistrado que julga casos da Operação Lava Jato - o juiz Sérgio Moro. E embora a chocolateria não pretenda tomar partido de nenhuma questão ideológica nesse momento político do Brasil, mas tão somente prestar uma homenagem a um profissional que se tornou nacionalmente célebre pelo cumprimento de seu papel, é com muito gosto que dou significado a esse novo doce. Adoto-o, pois como um símbolo para a Passagem que necessitamos empreender em nossa caminhada histórica rumo a um desejado futuro que "mana leite e mel", quando o brasileiro finalmente poderá desfrutar de bons serviços prestados pelo Estado bem como orgulhar-se de seu país, além dos vitoriosos jogos da seleção de futebol.

Portanto, desejo uma feliz Páscoa a todos e viva Sérgio Moro.


OBS: Texto publicado originalmente em meu blog (clique AQUI para acessar), sendo que a foto acima foi extraída de http://www.erickvidigal.com.br/empresa-lanca-ovo-de-pascoa-de-moroango-para-homenagear-juiz-da-operacao-lava-jato/

domingo, 12 de março de 2017

O REINO

Por Guiomar Barba.
(Do Facebook em 12.03.2017)

O meu Reino não é daqui deste mundo apodrecido.
No meu reino não existem sucessores, nem urnas.
Todos, sem disputas, serão reis e sacerdotes.
Haverá uma única comunidade, a dos santos.

Não existirá os gases da inveja, da cobiça.
Os escolhidos são os refugos deste reino terreno.
Pobres, desprezados, mas que foram ricos em fé,
Estes, não usaram o amor de Deus como máscara.

A justiça sofredora não morrerá com os humildes,
Mas resplandecerá através de linho puríssimo
Que não representa luxo, mas as boas obras
Daqueles que imitaram o caminhar de Jesus.

O meu Reino não surgiu de riquezas corruptas
Mas do amor que crucificou sua glória, seu poder.
Que se entregou a um espetáculo inaudito,
Ao tosquio com gosto de sangue e de fel.

No meu Reino estarão os que morreram comigo,
Ressuscitando em Mim para as boas obras.
E aqueles que conduziram muitos à justiça
Reinarão comigo, no Reino do nosso Pai.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

"A avenida nos espera!"

Por Hermes C. Fernandes
(extraído do Facebook)

"Não porei coisa má diante dos meus olhos" (Salmos 101:3). Este foi o versículo bíblico usado por um tele-pastor que aproveitava o carnaval para convencer sua audiência a fazer a assinatura de seu canal. Outros se aproveitam da época para promover retiros que custam até um salário mínimo. Longe da TV e das ruas, os fiéis seriam mantidos guardados do pecado. Será? Há quem ensine que ao permitir que tais "coisas más" entrem nossa casa, estaríamos dando "legalidade" a todo tipo de espíritos malignos. Alguma base bíblica sólida para isso? Não!

Parafraseando Jesus, se nossos olhos forem bons, tudo será luz, mas se forem maus, estaremos em maus lençóis. Para Paulo, "todas as coisas são puras para os puros" (Tt.1:15). O mal não está na avenida! O mal está em nós, em nossa presunção, em nossos falsos escrúpulos, em nosso moralismo exacerbado. Portanto, se não para por coisa má diante dos nossos olhos, nunca mais nos olhemos no espelho. A recomendação de Paulo é que examinemos de tudo, mas retenhamos somente o que for bom (1 Tessalonicenses 5:21).

Afinal, haveria algum problema em assistir ao desfile das escolas de samba? Estou convencido que não. Cabe a cada um examinar sua própria consciência e verificar se isso lhe convém ou não. Afinal, "todas as coisas nos são lícitas, mas nem todas nos convém". O que convém a um, nem sempre convém ao outro. Porém, aquele que assiste, não deve condenar o que não assiste e vice-versa.

Outra questão: e se tomássemos o desfile do Carnaval como analogia de nossa caminhada cristã? Certamente, a maioria discordará com veemência. Afinal de contas, o Carnaval é a festa pagã por excelência, onde, além de toda promiscuidade, entidades pagãs são homenageadas. Eu poderia gastar muitas linhas tecendo críticas justas a esta festa em que tantas famílias são desfeitas, e inúmeras vidas destruídas. Porém hoje, quero pegar a contramão.

Por que será que os cristãos sempre enfatizam os aspectos ruins de qualquer manifestação cultural? Se vivêssemos nos tempos primitivos da igreja cristã, como reagiríamos ao fato de Paulo tomar as Olimpíadas como analogia da trajetória cristã neste mundo? Ora, os jogos olímpicos celebravam os deuses do Olimpo. Portanto, era uma festa idólatra. Os atletas competiam nus. Sem contar as orgias e os sacrifícios que se seguiam às competições. Sinceramente, não saberia dizer qual seria pior, as Olimpíadas ou o Carnaval. Porém Paulo soube enxergar alguma beleza por trás daquela manifestação cultural. A disposição dos atletas, além do seu preparo e empenho, foram destacados pelo apóstolo como virtudes a serem cultivadas pelos seguidores de Cristo.

E quanto ao Carnaval? Haveria nele alguma beleza, alguma virtude que pudesse ser destacada do meio de tanta licenciosidade? Acredito que sim. Embora jamais tenha participado, talvez por ter nascido em berço evangélico tradicional, posso enxergar alguma ordem no meio do caos carnavalesco.

Destaco, em primeiro lugar, a criatividade dos foliões, principalmente dos carnavalescos na composição das fantasias, dos carros alegóricos, e do samba-enredo. É notória sua busca pela perfeição. Diz-se que o desfile do ano seguinte começa a ser preparado quando termina o Carnaval. É, de fato, um trabalho árduo que demanda muito empenho. Se houvesse por parte de muitos cristãos uma parcela da dedicação encontrada nos barracões de Escolas de Samba, faríamos um trabalho muito mais elaborado para Deus. Buscaríamos a excelência, em vez de nos contentar com tanta mediocridade. Tomemos por exemplo as composições musicais. Basta ouvir algumas estrofes para perceber o trabalho de pesquisa que envolve a composição de um samba-enredo. Sem contar as rimas ricas, as melodias marcantes, e a ousadia criativa das baterias. Enquanto isso, composições que visam louvar a Deus estão cada vez mais pobres, tanto do ponto de vista melódico, quanto do ponto de vista lírico. Não aguento mais temas repetitivos, tais como chuva, fogo, anjos e etc.

O desfile começa com a concentração. É ali que é dado o grito de guerra da Escola, seguido pelo aquecimento dos tamborins. A concentração equivale à congregação. Nosso lugar de culto (comumente chamado de “templo” ou “igreja”) é onde nos concentramos e aquecemos nosso espírito. Porém, a obra acontece lá fora, “na avenida” do mundo.

Gosto quando Paulo fala que somos conduzidos por Cristo em Seu desfile triunfal. O apóstolo compara a marcha cristã pelo mundo às paradas triunfais promovidas pelo império romano. Era um espetáculo cruento, no qual os presos eram expostos publicamente, acorrentados e arrastados pelas ruas da cidade. Era assim que Roma exibia sua supremacia, e impunha seu poder. Paulo toma emprestada a figura deste majestoso e horroroso evento para afirmar que Cristo está nos exibindo ao Mundo como aqueles que foram conquistados por Seu amor.

Muitos cristãos acreditam ingenuamente que a guerra se dá na concentração. Por isso, a igreja atual é tão ensimesmada, isto é, voltada para dentro de si. Ela passou a ver-se como um fim em si mesmo.

A avenida nos espera!

Encabeçando o desfile vai a comissão de frente, seguida pelo carro abre-alas. Compete aos componentes dessa comissão a primeira impressão. A comissão de frente da igreja de Cristo é formada pelos que nos precederam, que abriram caminho para as novas gerações. Não podemos permitir que caiam no esquecimento. Também são os missionários, que deixam sua pátria para abrir caminho em outros rincões. Grande é sua responsabilidade, e alto é o preço que se dispõem a pagar para que o Evangelho de Cristo chegue à populações ainda não alcançadas. Paulo fazia parte da comissão de frente da igreja primitiva. Escrevendo aos Coríntios, ele diz que sua missão era“anunciar o evangelho nos lugares que estão além de vós, e não em campo de outrem” (2 Co.10:16). Em bom português, o apóstolo dos gentios preferia pescar em alto mar, e não no aquário dos outros.

A Escola de Samba é dividida em alas, cada uma com fantasias e carro alegórico próprios. Porém, o samba-enredo é o mesmo. O que é cantado lá na frente, é sincronicamente cantado na última ala da Escola. A voz do puxador do samba, bem como a batida harmoniosa da bateria, ecoando por toda a avenida, garantem esta sincronia. Não pode haver espaços vazios entre as alas. Há harmonia até nas cores das fantasias. Ninguém entra na avenida vestido como quiser. Imagine se as variadas denominações que compõem o Corpo Místico de Cristo se relacionassem da mesma maneira, respeitando cada uma o espaço da outra, porém dentro de uma evolução harmoniosa.

No meio do desfile encontramos o casal formado pelo mestre-sala e pela porta-bandeira. Eles exibem orgulhosamente o pavilhão da Escola. Seus gestos e passos são cuidadosamente combinados, para que a bandeira receba as honras devidas. É triste verificar o quanto a bandeira do Evangelho tem sido chacoalhada, pois os que a deveriam ostentar, são os primeiros a desonrá-la com seu mal testemunho. Enquanto que os cristãos primitivos se dispunham a pagar com a própria vida para que seu testemunho de fé fosse validado e o nome de Cristo fosse honrado.

Ao término do desfile chega o momento da dispersão. É hora de partir, levando a certeza de que todos deram o melhor de si. Alguns saem machucados, com os pés sangrando, com as forças exauridas. Mas todos saem alegres, esperançosos de que sua escola seja a campeã. Aprenderam a sublimar a dor enquanto desfilam. Ignoram o cansaço. Vencem os limites do seu corpo. Tudo pela alegria de ver sua escola se sagrando campeã. Mas no fim, chega a hora de tirar a fantasia, descer dos carros alegóricos, cuidar das feridas nos pés. Mesmo assim, ninguém reclama. Todos exibem no rosto um sorriso de contentamento.

Semelhantemente, todos estamos a caminho do fim do desfile. O momento da dispersão está chegando, quando deixaremos este corpo, nossa fantasia, e seremos saudados pela Eternidade. Que diremos nesta hora? Não haverá novos desfiles. Terá chegado o fim de nossa trajetória? Não! Será apenas o começo de uma nova fase existencial. Deixaremos nossas fantasias, para nos revestirmos de novas vestes celestiais. Falaremos como Paulo em sua carta de despedida a Timóteo:

“...o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2 Tm.4:6b-8).

Aproveitemos os instantes em que estamos na avenida desta vida, celebremos a verdadeira alegria, infelizmente ainda desconhecida por muitos foliões, e que não terminará em cinzas.