domingo, 11 de fevereiro de 2018

As Escrituras patriarcais falam do feminino



Por Leonardo Boff*

Fundamentalmente importa reconhecer que a tradição espiritual judaico-cristã vem expressa predominantemente no código patriarcal. O Deus do Primeiro Testamento (AT) é vivido como o Deus dos Pais, Abraão, Isaac e Jacó, e não como o Deus de Sara, de Rebeca e de Miriam. No Segundo Testamento (NT), Deus é Pai de um Filho único que se encarnou na virgem Maria, sobre a qual o Espírito Santo estabeleceu uma morada definitiva, coisa que a teologia nunca deu especial atenção, porque significa a assunção de Maria pelo Espírito Santo e desta forma colocando-a do lado do Diivino. Por isso se professa que é Mãe de Deus.

A Igreja que se derivou da herança de Jesus é dirigida exclusivamente por homens que detém todos os meios de produção simbólica. A mulher foi considerada, por séculos, como não-persona jurídica e até hoje é excluída sistematicamente de todas as decisões do poder religioso. A mulher pode ser mãe de um sacerdote, de um bispo e até de um Papa, mas jamais poderá aceder a funções sacerdotais. O homem, na figura de Jesus de Nazaré, foi divinizado, enquanto, a mulher é mantida, segundo a teologia comum, como simples criatura, embora no caso de Maria, seja feita Mãe de Deus.

Apesar de toda esta concentração masculina e patriarcal, há um texto do Gênesis, verdadeiramente, revolucionário, pois afirma a igualdade dos sexos e sua origem divina. Trata-se do relato sacerdotal (Priesterkodex escrito por volta do século VI-V a.C.). Aí o autor afirma de forma contundente: “Deus criou a humanidade (adam em hebraico que significa os filhos e filhas da Terra, derivado de adamah: terra fértil) à sua imagem e semelhança e criou-os homem e mulher”(Gn 1,27).

Como se depreende, aqui se afirma a igualdade fundamental dos sexos. Ambos lançam sua origem em Deus mesmo. Este só pode ser conhecido pela via da mulher e pela via do homem. Qualquer redução deste equilíbrio, distorce nosso acesso a Deus e desnatura nosso conhecimento do ser humano, homem e mulher.

No Segundo Testamento (NT) encontramos em São Paulo a formulação da igual dignidade dos sexos: “não há homem nem mulher, pois todos são um em Cristo Jesus”(Gl 3,28). Num outro lugar, diz claramente: “em Cristo não há mulher sem homem nem homem sem mulher; como é verdade que a mulher procede do homem, é também verdade que o homem procede da mulher e tudo vem de Deus”(1Cor 11,12).

Além disso, a mulher não deixou de aparecer ativamente nos textos fundadores. Nem poderia ser diferente, pois sendo o feminino estrutural, ele sempre emerge de uma forma ou de outra. Assim na história de Israel surgiram mulheres politicamente ativas como Miriam, Ester, Judite, Débora ou as anti-heroínas como Dalila e Jezabel. Ana, Sara e Rute serão sempre lembradas honrosamente pelo povo. Inigualável é o idílio, numa linguagem altamente erótica, que cerca o amor entre o homem e a mulher no livro do Cântico dos Cânticos.

A partir do século terceiro a. C. a teologia judaica elaborou uma reflexão sobre a graciosidade da criação e da eleição do povo na figura feminina da divina Sofia (Sabedoria; cf. todo o livro da Sabedoria e os primeiros dez capítulos do livro dos Provérbios). Bem o expressou a conhecida teóloga feminista E. S. Fiorenza, “a divina Sofia é o Deus de Israel na figura da deusa”(As origens cristãs a partir da mulher, São Paulo 1992 p. 167).

Mas o que penetrou no imaginário coletivo da humanidade, de forma devastadora, é o relato anti-feminista da criação de Eva (Gn 1,l8-25) e da queda original (Gn 3,1-19: literariamente o texto é tardio, (por volta do ano 1000 ou 900 a.C). Segundo este relato, a mulher é formada da costela de Adão que, ao vê-la, exclama: “eis os ossos de meus ossos, a carne de minha carne; chamar-se-á varoa (ishá) porque foi tirada do varão (ish); por isso o varão deixará pai e mãe para se unir à sua varoa: e os dois serão uma só carne”(Gn 2,23-25).

O sentido originário visava mostrar a unidade homem/mulher (ish-ishá) e fundamentar a monogamia. Entretanto, esta compreensão que em si deveria evitar a discriminação da mulher, acabou por reforçá-la. A anterioridade de Adão e a formação a partir de sua costela foi interpretada como superioridade masculina.

O relato da queda é mais contundentemente anti-feminista: “Viu, pois, a mulher que o fruto daquela árvore era bom para comer..tomou do fruto e o comeu; deu-o também a seu marido e comeu; imediatamente se lhes abriram os olhos e se deram conta de que estavam nus”(Gn 3,6-7). O relato quer etiologicamente mostrar que o mal está do lado da humanidade e não do lado de Deus. Mas articula essa ideia de tal forma que trai o anti-feminismo da cultura vigente naquele tempo.

No fundo interpretará a mulher como sexo fraco, por isso ela caiu e seduziu o homem. Daí a razão de sua submissão histórica, agora teologicamente (ideologicamente) justificada: “estarás sob o poder de teu marido e ele te dominará”(Gn 3,16). Eva será para a cultura patriarcal a grande sedutora e a fonte do mal. No próximo artigo veremos como essa narrativa masculinista distorceu uma anterior, feminista, para reforçar a supremacia do homem..

Jesus inaugura outro tipo de relação para com a mulher, o que veremos também proximamente.


(*) Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu O rosto materno de Deus, Vozes 2005.

OBS: Imagem acima ilustrada por mim e oriunda da Wikipédia, com atribuição de autoria a Friedrich Müller, sendo o artigo constante no blogue do autor, Leonardo Boff, conforme consta em https://leonardoboff.wordpress.com/2018/02/09/as-escrituras-patriarcais-falam-do-feminino/

sábado, 20 de janeiro de 2018

A masmorra da perfeição




Por Ricardo Gondim

Meu amigo Elienai Junior escreveu “Salvos da Perfeição” como um convite para abandonarmos pretensões onipotentes. Aceitei o convite. Eu desejo ser salvo de todas as minhas pretensões perfeccionistas. Aliás, há algum tempo ando crescentemente em paz com as minhas ambiguidades. Aceito as sombras da interioridade sem o terror religioso, que antes me esbofeteava. Já encarei defeitos como moinhos que precisam ser destruídos; hoje vou no sentido contrário e pergunto: posso me valer de minha própria precariedade para aprofundar a minha humanidade? Entendo que aquilo que me faz paradoxal não me levará à perdição.

Se perfeição, no sentido metafísico, tem a ver com o finito menos valioso do que o infinito, prefiro um milhão de vezes a finitude. O absolutamente puro não pode relacionar-se com o impuro – ele nunca sabe se corre risco de contaminar-se. O perfeito se faz inamovível. Estagna. Empaca. Paralisa. Se algum dia, improbabilidade das improbabilidades, alguém conseguisse atingir a perfeição, tal pessoa se condenaria à solidão. Não poderia zangar-se já que raiva é um estado inferior à placidez. Não poderia amar, pois amor implica em vulnerabilizar-se ao outro.

Se o imaculado alcança o SER como estado puro, perde-se como pessoa; e do patamar de sua altivez, morre. Superior a todos, estanca a possibilidade de qualquer transfusão de sangue, de vida, que algum mal avisado amigo – imperfeito – quisesse doar. Sem experimentar processo, sem admitir que lhe falta algo, se isola, e vai para o inferno.

Não ambicionar ser perfeito (mesmo que fosse possível) significa atrever-se a continuar em transformação. O impecável se condena a encalhar na esfera que teólogos chamam de mundo ideal – da pura imobilidade, do marasmo completo, da placidez mais profunda de onde exala enxofre.

A história acontece repleta de senões. Não é necessário um exame minucioso para detectar: ainda não nasceu humano que prescinda de retoques. Mesmo o filho de Maria, diz a Escritura, “aprendeu a obediência naquilo que sofreu” – se aprendeu, progrediu; se progrediu, não era perfeito, simétrico, completo, terminado, absoluto.

O Éden está na Bíblia não para lamentar a perda de um estado de pureza, idílico, protegido e inocente. A Bíblia parece não admoestar que se volte ao paraíso perdido – como propôs o chatíssimo Milton.  Pelo contrário, a narrativa sagrada parece sugerir que encaremos aquele estágio da humanidade como não desejável. Permanecer no paraíso seria infantilizante. Para a história desenrolar, acontecer de verdade, foi imperioso sair do Éden – Filhos se tornam adultos quando quebram as grades do berço infantil, largam a barra da saia da mãe e entendem que a super proteção do pai idealizado era falsa.

Imperfeição, longe de qualquer parentesco com pecado, é condição humana. Admitir isso não significa humildade, mas simples constatação. Nunca humano algum vai conseguir desvencilhar-se de sua condição deficiente. O que é bom, pois crescimento e maturidade se iniciam a partir dessa admissão. A Bíblia também ensina que qualquer possibilidade de uma existência pós-morte deve contemplar ambiguidade humana, imperfeição e espaço para crescimento. O Apocalipse acena que o porvir eterno manterá as duas realidades mais presentes da existência: inferno e céu. Tanto céu como inferno continuarão depois da ressurreição. Na narrativa escatológica, inferno e céu representam não estado estático ou destino final das almas. O último livro da Escritura revela que tanto no passado, como agora e no futuro só se pode conceber vida humana com sombras e luzes – termo junguiano para as ambiguidades – que criam inferno e céu.

Exatidão, simetria ou pureza não passam de abstrações. No mundo das ideias é possível pensar um círculo perfeito. Contudo, no exato instante em que qualquer círculo for desenhado, defeitos aparecerão. Quem recusa admitir imperfeição se condena a culpa e hipocrisia – ambos adoecedores da alma.

Sistemas totalitários – filosóficos, religiosos ou políticos – tentam entalhar fundo na constituição humana, procurando adequar as pessoas aos imperativos da perfeição. E como nunca conseguem, assassinam. Torna-se imperioso para eles eliminar os que não alcançaram a medida proposta. O sarrafo dos saltos rumo ao ideal foi colocado tão acima da possibilidade humana que ninguém escapa. Daí o suplício dos que estão sujeitos a tais sistemas. Que jugo! Os que já sofreram podem relatar o terror de se verem amaldiçoados por uma divindade que não admite comportamentos que não sejam absolutamente certos. Quanta neurose, paranóia, psicose e morte!

Quando falo de imperativos, lembro que Graça nunca pode deixar de ser o norte cardeal da espiritualidade cristã. Graça ensina que Deus não só tolera os erros humanos, Deus celebra os limites da nossa imperfeição. Ele conhece a finitude de homens e mulheres e a enorme complexidade de viver. E não nos odeia por pisarmos os cadarços de nossos sapatos existenciais. Deus reconhece o valor do erro nos processos pedagógicos.

“O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno… Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniquidades. Pois quanto o céu se alteia acima da terra, assim é grande a sua misericórdia para com os que o temem. Quanto dista o Oriente do Ocidente, assim afasta de nós as nossas transgressões. Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor do que o temem. Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó”[Salmos 103.8-14].

O futuro da espiritualidade talvez dependa da capacidade dos crentes reavivarem a teologia da Graça. Se conseguirão, ainda não sabemos. O tempo dirá.

Soli Deo Gloria


OBS: Artigo extraído de http://www.ricardogondim.com.br/estudos/a-masmorra-da-perfeicao/

sábado, 13 de janeiro de 2018

São José: santo dos sem-nome, dos sem-poder e dos operários





Por Leonardo Boff*

Ao lado dos quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) que representam a inteligência da fé, pois são verdadeiras teologias acerca da figura de Jesus, existe uma vasta literatura apócrifa (textos não reconhecidos oficialmente) que levam também entre outros, o nome de evangelho, como o Evangelho de Pedro, o Evangelho de Maria Madalena e a História de José, o Carpinteiro que iremos comentar. Não foram acolhidos oficialmente por não se enquadraram na ortodoxia então dominante no século II e III quando a maioria surgiu. Eles obedecem à lógica do imaginário e preenchem o vazio de informações dos evangelhos, especialmente acerca da vida oculta de Jesus. Mas tiveram grande importância para a arte, especialmente na Renascença e, em geral, na cultura popular. A própria teologia hoje, com novas hermenêuticas os valoriza.

Este apócrifo, A história de José,o carpinteiro (edição da Vozes 1990), é rico de informações sobre Jesus e José. Na verdade, se trata de uma longa narrativa de Jesus sobre seu pai José feita aos apóstolos. Jesus inicia assim: “Agora escutai: vou narrar-vos a vida de meu pai José, o bendito ancião carpinteiro”.

Então Jesus conta que José era um carpinteiro, viúvo, com 6 filhos, quatro homens (Tiago, José, Simão e Judas) e duas mulheres (Lísia e Lídia). “Esse José é meu pai segundo a carne, com quem se uniu, como consorte, com minha mãe Maria.”

Narra a perturbação de José ao encontrar Maria grávida, sem a participação dele. Narra outrossim o nascimento de Jesus em Belém, a fuga para o Egito e a volta à Galileia. Termina dizendo: ”Meu pai José, o ancião bendito, continuou exercendo a profissão de carpinteiro e assim com o trabalho de suas mãos pudemos manter-nos. Jamais se poderá dizer que comeu seu pão sem trabalhar”.

Referindo-se a si mesmo, Jesus diz: “Eu de minha parte, chamava a Maria de ‘minha mãe’ e a José de ‘meu pai’. Obedecia-lhes em tudo o que me ordenavam sem me permitir jamais replicar-lhes uma palavra. Pelo contrário, dedicava-lhes sempre grande carinho”.

Continuando, Jesus conta que José casou pela primeira vez quando tinha 40 anos. Permaneceu casado por 49 anos até a morte da esposa. Tinha portanto 89 anos. Ficou viúvo um ano. Depois dos esponsais com Maria até o nascimento de Jesus ter-se-iam passado 3 anos. José teria, pois, 93 anos. Ficou com Maria por 18 anos. Somando tudo, teria morrido com 111 anos.

Depois, com detalhes, narra que seu pai “perdeu a vontade de comer e de beber; sentiu perder a habilidade no desempenho de seu ofício” Ao acercar-se a morte, José se lamenta proferindo onze ais. É o momento em que Jesus entra no aposento e se revela grande consolador. Diz: “Salve, José, meu querido pai, ancião bondoso e bendito”. Ao que José responde: “Salve, mil vezes, querido filho. Ao ouvir tua voz, minha alma recobrou a sua tranquilidade”. Em seguida, José recorda momentos de sua vida com Maria e com Jesus até recorda o fato de “ter-lhe puxado a orelha e o admoestado: ‘sê prudente, meu filho’ porque na escola fazia artes e provocava o rabino.

Jesus então confidencia: “Quando meu pai pronunciou estas palavras, não pude conter as lágrimas e comecei a chorar, vendo que a morte ia se apoderando dele. “Eu, meus queridos apóstolos, fiquei à sua cabeceira e minha mãe a seus pés…por muito tempo segurei suas mãos e seus pés. Ele me olhava, suplicando que não o abandonássemos. Pus minha mão sobre seu peito e senti sua alma que já subira à sua garganta, para deixar o corpo.”

Vendo que a morte demorava por vir, Jesus fez uma oração forte ao Pai: “Meu Pai misericordioso, Pai da verdade, olho que vê e ouvido que escuta, escuta-me: Sou teu filho querido; peço-te por meu pai José, obra de tuas mãos… Sê misericordioso para com a alma de meu pai José, quando for repousar em tuas mãos, pois esse é o momento em que mais necessita de tua misericórdia”. “Depois ele exalou o espírito e eu o beijei; eu me atirei sobre o corpo de meu pai José…fechei seus olhos e cerrei sua boca e levantei-me para contemplá-lo”. José acabara de falecer.

No sepultamento Jesus confidencia aos apóstolos: “não me contive e lancei-me sobre seu corpo e chorei longamente”, Termina fazendo um balanço da vida de seu pai José:


“Sua vida foi de 111 anos. Ao fim de tanto tempo, não tivera um só dente cariado e sua vista não se enfraquecera. Toda sua aparência era semelhante à de uma criança. Nunca sofreu qualquer indisposição física. Trabalhou continuamente em seu ofício de carpinteiro até o dia em que lhe sobreveio a enfermidade que o levaria à sepultura”.

Ao encerrar seu relato, Jesus deixa o seguinte mandato:“Quando fordes revestidos de minha força e receberdes o Espírito Paráclito e fordes enviados a pregar o evangelho, pregai também a respeito de meu querido pai José”. O livro que escrevi sobre São José que me custou 20 anos de pesquisa, até na Rússia, quis responder a este mandato de Jesus.

A bem da verdade, ele ficou quase esquecido pela Igreja oficial. Mas o povo guardou-lhe a memória, pondo o nome de José a seus filhos, a cidades, a escolas e a ruas. Ele é o símbolo dos sem-nome, dos sem-poder, dos operários e da Igreja dos anônimos.


(*) Leonardo Boff é teólogo e escreveu o livro São José, a personificação do Pai, Vozes 2005.

OBS: A ilustração acima (foto obtida através de uma postagem no blogue Suma Teológica) refere-se à cena da morte de São José, instalada atrás do altar principal da Igreja de São José, situada na Avenida Presidente Antonio Carlos, no Centro do Rio de Janeiro. Para chegar até o local é preciso conduzir-se através de uma passagem estreita, onde só é possível passar uma pessoa por vez. Já o artigo aqui reproduzido foi originalmente publicado no blogue do autor dia 12/01/2018, conforme consta em https://leonardoboff.wordpress.com/2018/01/12/sao-jose-santo-dos-sem-nome-dos-sem-poder-e-dos-operarios/

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O “Escapismo Escatológico” do Pentecostalismo

Trecho do Livro — “Pentecostalismo e Pós-Modernidade” (página 288 e 289) — de César Moisés Carvalho



“A maioria de nós apela para a escatologia de forma escapista. Uma proposta que, além de desvirtuar o propósito da escatologia, acaba incidindo justamente no contrário do que recomenda Jesus em Atos 1.7, acerca da proibição de se especular o amanhã lançando mão de um perigoso exercício de futurologia.

Lamentavelmente, no transcorrer da história, a escatologia deixou de ser vista como a maior das esperanças daqueles que creem e foram alcançados pelo Evangelho, tornando-se uma fonte de exploração sensacionalista. Por isso, raramente se discutiu o inegável fato de que, antes de se especular acerca dos acontecimentos e mudanças, vendo-os como 'sinais da vinda de Cristo', era imprescindível preparar os seguidores do Senhor para interagir em um mundo que já não era mais o mesmo (Ef 4.11-16). Contudo, diante das mudanças e transformações, o máximo que tem sido feito é prognosticar, dando-se apenas ao trabalho de encontrar um texto para encaixar determinado evento na Bíblia. O resultado é justamente esse que tem se apresentado ao longo dos anos, isto é, sobra especulação e falta atitude.

Tal omissão, além de colocar-nos à margem e obrigar-nos a viver a reboque da história, produz um sentimento pessimista de acomodação: 'Nada pode ser feito'; 'As coisas são assim mesmo', e muitas outras escusas. O problema maior é que o corolário desse pessimismo, ou do catastrofismo escatológico, é justamente a imobilidade mental, social e cultural e até mesmo espiritual. Isto é, além da famosa desculpa de que 'Se o mundo está destinado ao caos, nada podemos fazer', há outra pior, que é aquela que se pretende piedosa: 'É cumprimento da Palavra de Deus, tem que ser assim, pois é sinal da vinda de Jesus'. Nessa lógica impera mesmo que irrefletidamente, aquela ideia de que 'quanto pior, melhor'. Da esperança passamos ao individualismo e ao egoísmo”.


terça-feira, 10 de outubro de 2017

Dia da Criação: Mensagem do Papa e Bartolomeu – Texto integral




Por Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu


A narração da criação oferece-nos uma visão panorâmica do mundo. A Sagrada Escritura revela que, «no princípio», Deus designou a humanidade como cooperadora na guarda e protecção do ambiente natural. Ao início, como lemos no Génesis (2, 5), «ainda não havia arbusto algum pelos campos, nem sequer uma planta germinara ainda, porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e não havia homem para a cultivar». A terra foi-nos confiada como dom sublime e como herança, cuja responsabilidade todos compartilhamos até que, «no fim», todas as coisas no céu e na terra sejam restauradas em Cristo (cf. Ef 1, 10). A dignidade e a prosperidade humanas estão profundamente interligadas com a solicitude por toda a criação.


Os efeitos do nosso comportamento


«No período intermédio», porém, a história do mundo apresenta uma situação muito diferente. Revela-nos um cenário moralmente decadente, onde as nossas atitudes e comportamentos para com a criação ofuscam a vocação de ser cooperadores de Deus. A nossa tendência a romper os delicados e equilibrados ecossistemas do mundo, o desejo insaciável de manipular e controlar os limitados recursos do planeta, a avidez de retirar do mercado lucros ilimitados: tudo isto nos alienou do desígnio original da criação. Deixamos de respeitar a natureza como um dom compartilhado, considerando-a, ao invés, como posse privada. O nosso relacionamento com a natureza já não é para a sustentar, mas para a subjugar a fim de alimentar as nossas estruturas.


Pobres são os mais impactados


As consequências desta visão alternativa do mundo são trágicas e duradouras. O ambiente humano e o ambiente natural estão a deteriorar-se conjuntamente, e esta deterioração do planeta pesa sobre as pessoas mais vulneráveis. O impacto das mudanças climáticas repercute-se, antes de mais nada, sobre aqueles que vivem pobremente em cada ângulo do globo. O dever que temos de usar responsavelmente dos bens da terra implica o reconhecimento e o respeito por cada pessoa e por todas as criaturas vivas. O apelo e o desafio urgentes a cuidar da criação constituem um convite a toda a humanidade para trabalhar por um desenvolvimento sustentável e integral.


Rezar para mudar o modo de perceber o mundo


Por isso, unidos pela mesma preocupação com a criação de Deus e reconhecendo que a terra é um bem dado em comum, convidamos ardorosamente todas as pessoas de boa vontade a dedicar, no dia 1 de setembro, um tempo de oração pelo ambiente. Nesta ocasião, desejamos elevar uma acção de graças ao benévolo Criador pelo magnífico dom da criação e comprometer-nos a cuidar dele e preservá-lo para o bem das gerações futuras. Sabemos que, no fim de contas, é em vão que nos afadigamos, se o Senhor não estiver ao nosso lado (cf. Sal 126/127), se a oração não estiver no centro das nossas reflexões e celebrações. Na verdade, um dos objectivos da nossa oração é mudar o modo como percebemos o mundo, para mudar a forma como nos relacionamos com o mundo. O fim que nos propomos é ser audazes em abraçar, nos nossos estilos de vida, uma maior simplicidade e solidariedade.


A quantos ocupam uma posição de relevo em âmbito social, económico, político e cultural, dirigimos um apelo urgente a prestar responsavelmente ouvidos ao grito da terra e a cuidar das necessidades de quem está marginalizado, mas sobretudo a responder à súplica de tanta gente e apoiar o consenso global para que seja sanada a criação ferida. Estamos convencidos de que não poderá haver uma solução genuína e duradoura para o desafio da crise ecológica e das mudanças climáticas, sem uma resposta concertada e colectiva, sem uma responsabilidade compartilhada e capaz de prestar contas do seu agir, sem dar prioridade à solidariedade e ao serviço.


Do Vaticano e do Fanar, 1 de setembro de 2017.


Papa Francisco e Patriarca Ecuménico Bartolomeu


OBS: O artigo publicado trata-se do texto integral da mensagem conjunta do Papa Francisco e do Patriarca Ecuménico Bartolomeu I, para o Dia Mundial de Oração pela Criação

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Não acredito que escutei a palavra onanismo!



Por Júlio Antunes


Outro dia, um senhor religioso muito idoso chamou a minha atenção para que não fizesse a apologia do "onanismo", sob pena de ir para o "inferno" e que isso seria um "vício próprio dos sodomitas".

Curioso, fui ao dicionário ver qual o significado do termo onanismo e encontrei no Priberam esta definição:

"(Onã, .antropônimo [personagem bíblica] + -ismo)
substantivo masculino
1. Coito interrompido antes da ejaculação.
2. Masturbação masculina."

Como já fui crente por muitos anos, em que até frequentava a escola dominical de uma igreja evangélica, não foi difícil entender o porquê do uso da palavra assim como já tinha conhecimento do significado de sodomia, cuja aplicação aos homossexuais já considerava deturpada em relação à própria narrativa da Bíblia.

De acordo com a lenda hebraica, Judá, um dos chefes das doze tribos da nação de Israel, teve três filhos no seu primeiro casamento. O primogênito, Er,  casou-se com Tamar. Porém, o texto das Escrituras conta que ele era "mau aos olhos do Senhor" e, por isso, Deus o teria castigado com a morte.

Seguindo o costume patriarcal da época, a viúva e o irmão do meio, o tal do Onã, teriam que manter um relacionamento sexual a fim de que o falecido pudesse ter uma descendência. Ou seja, quando ela emprenhasse do cunhado, a primeira criança do sexo masculino seria considerada filho do que morreu e, obviamente, iria disputar a herança de Judá junto com o pai biológico mas que, para fins formais, seria somente o tio do menino.

A grande confusão que se fez em cima dessa história mítica encontra-se nos versos 9 e 10 do capítulo 38 de Gênesis, cuja narrativa assim diz:

"Onã, porém, soube que esta descendência não havia de ser para ele; e aconteceu que, quando possuía a mulher de seu irmão, derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão. E o que fazia era mau aos olhos do Senhor, pelo que também o matou."

Devido à má interpretação desse episódio da Bíblia é que a masturbação foi associada ao citado personagem e embasada doutrinariamente pela Igreja (São Tomas de Aquino?) como um "pecado contrário à natureza". E olhem que o texto, considerado sagrado pelo cristianismo, nem é claro em dizer se Onã batia uma quando estava na tenda com a cunhada ou tirava o pênis de dentro dela na hora em que fosse ejacular.

Apesar de ser hoje um agnóstico e considerar a Teologia de baixa utilidade para o progresso da humanidade, creio que, nos tempos passados, faltou um estudo dos padres e pastores que fosse imparcial. Até porque não me parece ter sido a punheta e nem o coito interrompido uma conduta má conforme os valores culturais dos antigos hebreus, mas, sim, a recusa em manter viva a memória do irmão falecido, tendo em vista a instituição entre eles do costume que obrigava um homem a gerar filhos para a viúva de seu irmão quando este morria não deixando descendência masculina.

Claro que esse costume também é questionável segundo os valores atuais e, neste sentido, talvez até desnecessário. Até porque seria um absurdo obrigar a viúva de um homem a transar com o cunhado. Aliás, se nem a mulher é obrigada a ter relações sexuais com o marido ou aceitar um matrimônio arranjado pela família, uma situação dessas já não teria o mínimo sentido para os nossos dias onde se reconhece a igualdade de gênero.

Na inauguração de uma nova era científica, de respeito às diferenças, de liberdade sexual, tolerância e paz entre os povos (se é que a humanidade sobreviverá até lá), resta apenas desmistificar toda a estupidez repressiva inventada pela religião baseada em literaturas consideradas sagradas. Por isso, talvez, ainda sobra algo de útil na Teologia e não jogo fora a cultura eclesiástica aprendida no meio cristão.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O DEUS OPERÁRIO E A REDENÇÃO DA MALDIÇÃO DO TRABALHO

Por Hermes C. Fernandes 
(extraído do Facebook)

Finalmente, o Dia do Trabalho. E para muitos, não haveria melhor maneira de se comemorá-lo do que tirando um dia de folga. Quem gostaria de passar o Dia do Trabalho trabalhando, não é mesmo? 

Fica a impressão de que trabalho seja um mal necessário, uma espécie de maldição. Daí, a ojeriza que temos pela segunda-feira e o anseio para que chegue logo a sexta-feira.  O sonho de muitos é ganhar na loteria para nunca mais ter que trabalhar. Consideramos bem-aventurado quem ganhe muito trabalhando pouco. 

Há até quem busque justificar tal postura teologicamente. Estes entendem que o trabalho foi instituído por Deus como uma maldição decorrida do pecado. A célebre frase "Do suor do teu rosto comerás..." ecoa como uma sentença condenatória. Ledo engano! Mesmo antes da Queda, Deus destacou o primeiro homem para que cultivasse o seu jardim. Portanto, o Jardim do Éden, ou jardim dos prazeres, também era o jardim do labor. 

Se trabalho fosse maldição, logo, o Deus revelado em Cristo seria um deus amaldiçoado. "Meu Pai trabalha até agora", declara Jesus, "e eu trabalho também" (João 5:17).

O que torna o trabalho algo penoso ou prazeroso é o seu propósito. A pergunta que deveríamos nos fazer é: pelo quê trabalhamos? Ironicamente, se trabalhamos visando unicamente nosso sustento e aprazimento, o trabalho se torna um tormento. Mas quando trabalhamos visando o bem comum e a glória de Deus, sentimo-nos realizados e plenamente satisfeitos. Em outras palavras, o que dignifica o trabalho é o amor. Isaías profetiza que Jesus "verá o fruto do trabalho de sua alma, e ficará satisfeito" (Is.53:11). E qual seria o tal fruto do Seu trabalho? A redenção da humanidade e a restauração de toda a criação. Portanto, o que motivou o Seu árduo trabalho foi o amor.

Se num jardim, o trabalho tornou-se numa sentença de maldição, também foi num jardim que Cristo resgatou o sentido sagrado do trabalho ao ter Seu suor transformado em sangue. Movido tão-somente por amor, Ele abriu mão de viver para Si mesmo para oferecer Sua vida em resgate de muitos. Por amor Ele sorveu inteiramente o cálice que nos estava destinado, absolvendo-nos de toda e qualquer sentença. Uma vez redimidos, deixamos de viver e trabalhar visando exclusivamente nosso próprio bem, para viver e trabalhar em função da glória de Seu amor e do bem de nossos semelhantes.

Repare nisso: Sua obra redentora começou antes da cruz! As primeiras gotas de sangue que derramou não foram provocadas pela perfuração dos pregos, nem pela coroa de espinhos ou pelas chicotas. Em vez disso, Seu suor, símbolo do árduo trabalho a que fora submetido o homem, tornou-se em sangue. Pode-se dizer, então, que a primeira coisa a ser resgatada por Cristo foi a relação do homem com o trabalho. Tal se deu pelo fato de que a primeira sentença que recebera de Deus afetou justamente sua relação com a terra. O que antes era prazeroso, tornou-se doloroso. O que era gracioso, tornou-se custoso. Cristo toma sobre Si esta sentença e nos absolve para que possamos viver plenamente nossa vocação profissional.

Assim como Jesus, o Pai também trabalha visando o bem daqueles a quem ama, como testifica o mesmo profeta Isaías, "desde a antiguidade não se ouviu, nem com os ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nele espera" (Is.64:4). Quem diria? O Deus dos cristãos é um Deus Operário. Ele trabalha até no turno da noite! "Aos seus amados, Ele dá enquanto dormem" (Sl.127:2b).

Igualmente, devemos viver e trabalhar por aqueles a quem devotamos nosso amor. Como asseverou Paulo: "Ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si" (2 Co.5:15).

Sabemos que "em todo trabalho há proveito" (Pv.14:23), todavia, o trabalhador não deve ser o único a se beneficiar de seu labuto. Como discípulo do Pai e do Filho, impulsionado pelo Espírito, requer-se do verdadeiro cristão que "trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o que tiver necessidade" (Ef.4:28). Isso não quer dizer que não se possa usufruir dos frutos do próprio trabalho. Pelo contrário. A Escritura declara que "o lavrador que trabalha deve ser o primeiro a gozar dos frutos" (2 Tm.2:6), e que sem qualquer sentimento de culpa, "todo homem coma e beba, e goze do bem de todo o seu trabalho; isto é um dom de Deus" (Ec.3:13).

O que deveríamos considerar maldição não é o trabalho, mas a ociosidade. Por isso, Cristo adverte aos Seus discípulos: "Negociai até que eu venha"(Lc.19:13). A palavra "negócio" é a junção de duas outras palavras: negar + ócio. Portanto, trabalhar é negociar, isto é, negar o ócio, descruzar os braços, buscar o que fazer. Pode até ser que falte emprego, mas jamais faltará trabalho. 

Desde os primórdios da igreja, alguns quiseram se aproveitar daquele clima de solidariedade em que todos repartiam entre si os seus haveres, e com isso, recusavam-se a trabalhar. Paulo teve que cortar um dobrado com esses espertalhões. A ordem apostólica era: "Se alguém não quer trabalhar, também não coma" (2 Ts.3:10). Uma coisa é não trabalhar por razões contrárias à vontade, tais como falta de oportunidade, doença, injustiça, etc. Outra coisa é não querer trabalhar. Ninguém tem o direito de ser pesado aos demais. Paulo dá testemunho acerca da postura que ele mesmo adotou no afã de ser exemplo para os demais:

"Nem de graça comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós." 2 Tessalonicenses 3:8

Outra coisa que Deus abomina é a exploração do trabalho alheio. Paulo dá eco ao princípio ensinado por Jesus: "O trabalhador é digno do seu salário" (1 Tm.5:18; Lc.10:7). Se trabalhar é sinônimo de bênção, ser explorado é o que há de mais próximo do que poderíamos chamar de maldição.

Assim como há quem queira receber sem trabalhar, também há que queira tirar vantagem do trabalho de outros. Há duas severas admoestação para os tais, uma extraída do Antigo e outra do Novo Testamento:

"Ai daquele que edifica a sua casa com iniquidade, e os seus aposentos com injustiça; que se serve do trabalho do seu próximo sem remunerá-lo, e não lhe dá o salário." Jeremias 22:13 

"Eis que o salário que fraudulentamente retivestes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos clama, e os clamores dos ceifeiros têm chegado aos ouvidos do Senhor dos Exércitos." Tiago 5:4 

Deus não viola Seus próprios princípios. Quem se atreve a burlá-los certamente terá consequência. Assim como queremos que nosso trabalho seja valorizado, recebendo o que for justo, devemos valorizar o trabalho dos outros, pagando-os de acordo com o que for justo e honesto.

No Reino de Deus, ninguém precisa perder para que outro ganhe. Onde impera a justiça, ali há paz. E onde houver paz, ali haverá alegria.

Feliz Dia do Trabalho a todos!